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O tiro saiu pela culatra?

Custoso e complexo, mas muito necessário, e cada vez mais exigido pela sociedade, o elo policial da segurança pública continua sendo um ingente desafio para os governantes brasileiros. Encontrar formas para superá-lo não tem sido tarefa fácil principalmente para o governo capixaba, nos últimos dias, diante do impasse conduzido pelo movimento das jovens esposas dos militares estaduais capixabas.

Na entrevista ora concedida à Jornalista Miriam Leitão, da Rede Globo, tudo indica que o governo tinha informações sobre um provável episódio. Se esse episódio seria a paralisação dos militares estaduais, não há informações claras, mas foi, de fato, o que ocorreu? Não há, ainda, conexão sobre quem liderou ou lidera o propagado movimento?

Porém, há outras perguntas sem respostas. O comandante geral, a exemplo dos demais secretários estaduais, é escolha pessoal do governador. É nomeado nos termos do § 4º do art. 131 da Constituição Estadual do Espírito Santo. Então, quem exonerou o Comandante Geral? O que ele teria dito, ou deixou de dizer, ao governador ou ao vice-governador, na titularidade do governo? O que sabe o comandante geral substituto e o qual a condição propôs para encerrar o movimento e colocar sua tropa na rua? Isso porque o comandante geral seria, em tese, a única autoridade capaz de encerrar o movimento. Por isso, ao seu comando é que se dirá se houve, ou não, indisciplina, quebra de hierarquia, após a apuração dos fatos, segundo as normas que regem a Instituição Militar Estadual (IME).

Naquela entrevista, o Governador declarou sobre a regularidade das finanças públicas daquele estado. Essa situação parece que chegou ao domínio público pela via errada. E, se o governo sabia da possível paralisação de determinada categoria do funcionário público, por que não comunicou à população a real situação do Estado? Por que, antes de afastar para o tratamento de sua saúde, não comunicou ao funcionalismo público sobre a reestruturação pretendia para os serviços públicos, inclusive, a que beneficiaria os de polícia ostensiva e preservação da ordem pública?

Parece que o governado sabia o que poderia acontecer, conforme se vê, nas respostas daquela entrevista e nas que foram feitas feita à Carolina Linhares – da Folha de S. Paulo – publicada nesta segunda-feira (13) .

Daquelas respostas, ressai o entendimento de que o Governo do Espírito Santo é um dos poucos, no Brasil, que teria condições de sufocar qualquer movimento paredista do funcionalismo público.

Outra dificuldade percebida, diante do impasse causado, é a postura daqueles que se posicionaram como negociadores. Para gerir conflito social, se não se tem uma vantagem, não é recomendável um posicionamento caudilho, arbitrário e prepotente. Negociação é encontrar decisões satisfatórias para as partes contendoras. Isso está claro no “Dilema do Prisioneiro”. Aprendemos, nesse caso quatro situações possíveis: ganha-ganha; ganha-perde; perde-ganha e perde-perde. A melhor delas é a primeira. Então, da negociação realizada entre governo, associações representativas dos militares e representantes das jovens esposas dos PMs, qual foi o resultado efetivo? Por que o movimento não encerrou?

Assistidas pela imprensa televisiva e lidas nas publicações midiáticas, percebe-se que ainda persiste a atitude — nada humilde e ameaçadora — querendo encontrar um culpado. Isso foi observado nos representantes do governo federal, do governo estadual e do comandante geral substituto, mas o impasse, que poderia ter sido evitado, pelas evidências dos fatos, ainda continua.

Qual é o papel das jovens senhoras e esposas dos PMs capixabas? O que significa o posicionamento delas à frente do quartel do comandante geral, como tem sido mostrado? Não estariam apenas demonstrando, à sociedade, que há, de fato, um clamor, outrora silencioso e sufocado, mas assim verbalizado pelo Secretário de Estado dos Direitos Humanos do Espírito Santo?

Contra a sociedade que não valoriza o policial. Que tem um trabalho difícil, ganha mal e morre pela sociedade. Eles trabalham com regime disciplinar duríssimo, em que um policial pode ser preso porque não engraxou o sapato.

Parece que o desafio maior do governo capixaba é ouvir o clamor que vem do recôndito dos lares dos guardiães valorosos da polícia ostensiva e preservação da ordem pública.

Será que clamor das jovens senhoras e esposas dos PMs capixabas chegou às ruas? Como se esplica o panelaço dos capixabas, no momento da entrevista do governador licenciado?

Ah! Esse clamor precisa ser ouvido por toda sociedade, que organizada, cobrará dos governos a manutenção de profissionais de segurança qualificados e satisfeitos. E a satisfação dos militares, a exemplo do que já foi cantada, em versos e prosas, nas organizações públicas e privadas, ao longo do nosso país, não é apenas salarial.

As informações sobre o clamor, provavelmente, o comandante geral substituído as teriam. O substituto também. Analisá-las adequadamente e buscar as respostas indicativas é o que precisa ser feito. Não é possível esperar mais. Nelas, não haverá uma explicação plausível sobre por que o tiro saiu pela culatra?

A história mostra, a exemplo de fatos anteriores e menos danosos à sociedade, que a má gestão de crise, envolvendo os profissionais da polícia ostensiva e preservação da ordem pública, causou dividendos políticos irreversíveis.

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