Violência, violências: mais agredidas ou mais atentas?

“Violência, violências: mais agredidas ou mais atentas?” é um relatório de uma pesquisa, apresentado por Sílvia Ramos — Cientista social e coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes, e do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania – CESEC.

O marco inicial da pesquisa teria sido a quantidade de casos de violência contra mulheres registrada pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, no período do Carnaval de 2017.

À busca de maiores esclarecimentos do fenômeno, pesquisadores do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e Datafolha ouviram homens e mulheres em 103 cidades do Brasil. Os resultados apresentados no texto seguinte, foram surpreendentes, de acordo com o relatório de Sílvia Ramos.

Violência, violências: mais agredidas ou mais atentas?

Centro de Estudos de Segurança e Cidadania – CESEC

Sílvia Ramos

Cientista social e coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes.

A Polícia Militar do Rio de Janeiro divulgou um balanço do Carnaval de 2017 e revelou que 2.154 pessoas chamaram o 190 para denunciar casos de violência contra mulheres entre a sexta-feira, dia 26 de fevereiro, e a quarta-feira, dia 1 de março. Uma agressão a cada três minutos. A bióloga Elisabeth Henschel, de 23 anos, estava em um bar no centro do Rio de Janeiro quando foi apalpada por um homem. Ao procurá-lo para tirar satisfações, levou dois socos no rosto. Elisabeth, que disse ter saído fantasiada de diaba usando um maiô em que se lia ‘feminist’ justamente para fazer alusão “aos xingamentos feitos às feministas”, precisou receber três pontos no nariz e relatou o caso em seu Facebook: “desde o momento em que pisei fora de casa, os homens começaram seus ataques, desde olhares lascivos às gracinhas mais absurdas. Vários tentaram encostar em meu corpo sem meu consentimento1”. Uma entidade carioca que fazia a campanha Carnaval sem Preconceito teve que trocar as mulheres por homens, porque mulheres que distribuíam folhetos contra o assédio nos blocos ouviram xingamentos e foram ofendidas verbal e fisicamente2.

Que realidades estão guardadas por trás dessas notícias e desses números? Que dinâmicas cotidianas acontecem abaixo da linha mais visível de violências explícitas nas ruas e que moldam – ainda em parte – nossa cultura de relações possíveis entre homens e mulheres dentro de casa, entre casais, ex-parceiros, familiares e vizinhos?
Para entender isso, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Datafolha ouviram homens e mulheres em 103 cidades do Brasil. Duas mil e setenta e três pessoas pararam para dar entrevistas em pontos de fluxo e responderam perguntas sobre violência contra as mulheres. Como algumas perguntas poderiam ser íntimas ou constrangedoras, 833 mulheres responderam a um bloco de questões preenchendo elas mesmas as respostas num tablete – uma técnica que coloca um padrão especial nas pesquisas de “vitimização” contra mulheres.

Os resultados confirmam padrões que não param de nos surpreender – como o fato de que 30% das mulheres relataram ter sofrido algum tipo de violência pessoal e direta apenas no último ano e nada menos do que 66% de todos os entrevistados admitiram ter presenciado alguma cena de violência contra mulheres no próprio bairro no último ano. Ao lado disso, a pesquisa traz revelações inesperadas, ou ao menos instigantes.

Jovens no mundo do trabalho com maior escolaridade e maior renda

Um resultado surpreendente da pesquisa foi a incidência de vivências de agressões e violência entre as mulheres jovens de 16 a 24 anos. As com renda maior (mais de 2 salários mínimos), as solteiras e as inseridas na população economicamente ativa (PEA) também relataram mais experiências de violência do que as mais velhas, menos escolarizadas e fora do mercado de trabalho. Mais surpreendente ainda: não só as mais jovens relataram ter sofrido mais agressões, mas também presenciaram mais cenas públicas de agressões contra mulheres nos últimos 12 meses, chegando a 80% das entrevistadas, contra 55% das entrevistadas mais velhas.

30% das mulheres relataram
ter sofrido algum tipo de
violência pessoal e direta
apenas no último ano

É certo que mulheres jovens, inseridas no mercado, circulam mais pela cidade e estão mais expostas a sofrer e testemunhar cenas de violência, assédios, ofensas e ameaças, especialmente em locais públicos. Mas também é provável que mulheres mais jovens estejam hoje mais atentas ao decodificar como “violência” uma cantada agressiva, uma proximidade corporal forçada e também estejam mais dispostas a ressignificar como assédio aquele convite insistente do chefe ou do professor que tinha ficado na memória apenas como um momento ruim vivido na solidão e em geral na culpa.

Com certeza, a chamada “quarta onda do feminismo”, que envolveu especialmente mulheres jovens nas redes e nas ruas principalmente a partir de 2015, influenciou os resultados das respostas das mais jovens para a pesquisa. Carla Rodrigues mostra que “aprimaveradasmulheres veio embalada pelas manifestações de 2013, pela criação de coletivos de mulheres e pela retomada das ruas desde 2011, quando começou a se espalhar, a partir do Canadá, a Marcha das Vadias. Fomos gritar #foracunha e protestar contra o Projeto de Lei 5069; as negras exibiram seus cabelos no #orgulhocrespo e organizaram a Marcha Nacional das Mulheres Negras; ocupamos as redes para denunciar #meuprimeiroassedio; intelectuais ganharam espaço na campanha #agoraéquesãoelas; a #partidA se organizou como um novo movimento feminista (…) o Think Olga liderou a mobilização #chegadefiufiu para dar um basta na naturalização do assédio, da violência sexual e da cultura do estupro; o transfeminismo confrontou o essencialismo das feministas radicais, as radfems [radical feminists], e reivindica espaço legítimo no movimento de mulheres (…) Tudo isso acontece ao mesmo tempo, formando a quarta onda feminista. Ou seria a terceira? (…)3”.

Violência, violências: nossos velhos “conhecidos”

Um complicador na discussão sobre violência contra a mulher é que os fenômenos de agressão
não são únicos nem correspondem a dinâmicas simples ou idênticas para todos os casos. A percepção de que certos comportamentos públicos masculinos agora são inaceitáveis, como cantadas e insinuações, continua convivendo com a violência a portas fechadas onde o agressor é o “conhecido” marido, ex-cônjuge, pai, irmão ou vizinho (61% dos casos de violência conforme a pesquisa). Os padrões são complexos e os enredos são suficientemente sofisticados e criativos a ponto de justificar a ilusão de que o pai extremoso, o marido arrependido, o trabalhador honesto não pode ser tão “mau” a ponto de bater na mulher até tirar sangue ou quebrar um membro. Ele está desempregado, é só quando bebe, ele vai melhorar. O fato é que, sob a expressão violência contra a mulher, encontram-se variadíssimas dinâmicas e formas de agressão e o próprio movimento de mulheres e os sistemas policiais de proteção às mulheres às vezes têm dificuldade de entender que a Lei Maria da Penha foi um avanço extraordinário em termos simbólicos para toda a sociedade, mas também foi um complicador para mulheres que – em vez de punir, punir, punir – querem restaurar suas relações. Querem que a violência cesse, mas não querem se separar de seus companheiros.

O que a pesquisa parece mostrar é um cenário complexo, no qual novos padrões de percepção
de violências (assédio, olhares, ameaças veladas) convivem lado a lado com os velhos padrões de vitimização de violência familiar em que mulheres continuam vivendo espancamentos e ameaças de vida às vezes impossíveis de superar. A pergunta que deveríamos fazer – ao verificarmos que mais de metade das mulheres agredidas (52%) relata não ter feito nada após a agressão – como especialistas em segurança é: estamos usando todas as ferramentas disponíveis para criar alternativas para as dinâmicas complexas de violência contra a mulher? Será que não estamos “entregando” os destinos das mulheres vítimas apenas à Polícia e à Justiça tradicionais?
Por que temos usado tão pouco círculos de Justiça Restaurativa e dinâmicas de Mediação de Conflitos? Organizações como o Fórum Brasileiro de Segurança Pública têm que investir nessas
agendas nos próximos anos, ou não sairemos do pesadelo onde nos metemos, centrado em crime, vingança, prisão, estigma, crime, punição.

Estamos mais violentos?

Nós somos violentos, como sociedade e como cultura predominante de resolução de conflitos.
Nossos 58.000 homicídios a cada ano não nos deixam enganar. É bom lembrar que os assassinatos são 24 Violência, violências: mais agredidas ou mais atentas?
apenas a ponta visível de violências múltiplas: onde há muitos homicídios, contam-se à rodo lesões corporais, ameaças, crimes violentos contra o patrimônio, etc. No caso da violência doméstica contra a mulher, algumas vezes o homem só olha para a gaveta onde guarda a arma para fazer a mulher obedecer: ela sabe que ele efetivamente pode matá-la, numa cultura onde mata-se muito. No caldo de agressões e ameaças que tantas vezes regulam as relações íntimas, não vamos nos esquecer que violências entre casais do mesmo sexo e também de mulheres em relação a homens estão presentes em casamentos e estruturas familiares onde a violência é uma gramática que algumas vezes conjuga o afeto e o amor. Aliás, o mesmo ocorre entre casais de adolescentes namorando ou “ficando”4.

Em minha opinião, o resultado mais surpreendente desta pesquisa foi a concordância de mais 70% de homens e mulheres, de todas as idades, classes sociais e regiões do Brasil, de que a violência contra a mulher aumentou nos últimos dez anos. Será? Creio que a pesquisa captou um momento de alta sensibilidade para o tema, devido aos debates crescentes na sociedade, à presença de jovens nas redes e nas ruas engajadas nos novos movimentos feministas, à militância de jovens negros e negras, moradores de favelas e periferias discutindo o tema da violência e do racismo, devido ao trabalho de organizações de apoio a mulheres, de delegacias especializadas e à importante divulgação dos parâmetros da Lei Maria da Penha.

Eu não acredito que a violência contra a mulher é maior hoje no Brasil que há dez anos atrás. Acho que as mulheres e homens jovens reconhecem, identificam e rejeitam mais situações de violência de gênero do que as mulheres e homens de minha geração. Mas só pesquisas como essa serão capazes de revelar o que acontece de fato com mulheres e homens nas casas, na vida privada e nos espaços públicos. Temos uma excelente fotografia, mas precisamos do filme. Tomara que o FBSP faça dessa pesquisa de vitimização de mulheres uma longa tradição.

1. https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2017/03/02/uma-mulher-foi-agredida-a-cada-3-minutos-durante-ocarnaval-no-rio.htm
2. http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2017-03-02/uma-mulher-foi-agredida-a-cada-quatro-minutos-durante-o-carnaval.html
3. Carla Rodrigues. Erguer, acumular, quebrar, varrer, erguer… Revista Serrote, no. 24, 2017. http://www.revistaserrote.com.br/2017/01/erguer-acumular-quebrar-varrer-erguer-por-carla-rodrigues/
4. “Eu bato mesmo” dizia uma das adolescentes entrevistadas pela equipe do CLAVES/FIOCRUZ, em pesquisa que revelou um padrão extremamente agressivo em relacionamentos adolescentes ao ouvir 3.200 estudantes de 104 escolas públicas e privadas em dez Estados. Nove em cada dez jovens afirmaram praticar ou sofrer violência no namoro. Quem mais bate são as meninas. Quase 30% delas disseram agredir fisicamente o parceiro. São tapas, puxões de cabelo, empurrões, socos e chutes. Entre os meninos, 17% se disseram agressores. “As meninas estão reproduzindo um padrão estereotipado do comportamento masculino”, diz uma das coordenadoras da pesquisa, Kathie Njaine. O motivo das agressões é quase sempre o ciúme e a vontade de manter o parceiro sob controle. O estudo está no livro Amor e Violência: um paradoxo das relações de namoro e do ‘ficar’ entre jovens brasileiros (Maria Cecília de Souza Minayo, Simone Gonçalves de Assis, Kathie Njaine. Editora Fiocruz, 2011)

Fonte: A vitimização de Mulheres no Brasil – 2017, p. 21-24.

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